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Historia - Luzes da ribalta - Empresa Belga tem a concessão eletrica no RJ em 1886

Fonte: Revista Historia do Brasil | 31/12/1959


01/10/2006
Luzes da ribalta
A chegada da energia elétrica no Rio de Janeiro foi recebida de modo contraditório, entre o encanto com a novidade e os protestos da população
Amara Silva de Souza Rocha

Em 1854, em meio a grande euforia popular, foi inaugurada a iluminação pública a gás, realizada por uma companhia do visconde de Mauá. Industrial, banqueiro, político e diplomata, Mauá foi um importante empreendedor capitalista do século XIX, investindo em vários setores, especialmente em serviços públicos. O Rio foi a primeira cidade brasileira a utilizar gás na iluminação pública. Para orgulho de seus habitantes, os jornais cariocas anunciavam que a intensidade da luz era superior à dos combustores de Londres. A população, que se mostrara temerosa durante a construção do gasômetro, vivia um clima de euforia e curiosidade diante do poder de iluminação do gás.

Ao contrário do que ocorreu com a iluminação a gás, a capital não foi a primeira cidade brasileira a utilizar eletricidade, sendo antecedida por várias outras cidades do interior do Rio, Minas Gerais e São Paulo. A primeira experiência oficial com energia elétrica foi iniciativa de D.Pedro II, que em 1879 – mesmo ano em que Thomas Edison, que inventou, entre outras coisas, a lâmpada incandescente, construiu a central elétrica para Nova York – inaugurou a iluminação da antiga Estação da Corte da Estrada de Ferro Central do Brasil. O diretor da estação na época era o jovem engenheiro Francisco Pereira Passos, que anos depois viria a ser o prefeito das reformas urbanas.

A expansão da eletricidade ocorrerá já no regime republicano, quando a cidade é promovida de município neutro da corte a distrito federal, passando a ser administrada pelos poderes municipal e federal. A superposição de atribuições deságua em conflitos nas concessões de serviços públicos, como iluminação e transporte público. A proprietária da concessão de fornecimento de iluminação pública era a Société Anonyme du Gaz (SAG), empresa belga que desde a sua fundação, em 1886, mantinha uma relação contratual direta com o governo imperial, e que por isso se recusou a aceitar a ingerência municipal. O impasse perdurou até 1899, quando o contrato foi finalmente revisto e a SAG manteve o privilégio para explorar a iluminação pública.

Mas a façanha de cumprir tal contrato, que já previa a substituição do gás por eletricidade, não seria da SAG. A concessão passou a ser alvo de acirrada disputa com a empresa canadense Light. Após obter apoio do presidente da República, Rodrigues Alves, e do prefeito Pereira Passos, o grupo Light fundou no Canadá, em 1904, a The Rio de Janeiro Tramway, Light and Power Co. Ltd. No intuito de monopolizar o setor, a companhia se dedicou a captar recursos no mercado financeiro internacional, visando adquirir empresas que possuíam concessões de energia elétrica.

{NOVAPAGINA)

Em pouco tempo, a Light passou a controlar alguns dos principais serviços públicos da cidade, sendo apelidada, pejorativamente, de `polvo canadense`, que estendia seus tentáculos por todo o espaço urbano. Entre as concessões incorporadas estava o serviço telefônico da cidade e, décadas mais tarde, o de ônibus. Anos depois, a empresa viria a desenvolver uma campanha de marketing para melhorar sua imagem junto à população carioca.

Para assumir a concessão do serviço de iluminação pública da capital, a Light se torna proprietária indireta da SAG. A empresa belga enfrentava então sérias dificuldades financeiras que a impediam de cumprir a exigência de substituir gradativamente a iluminação a gás pela elétrica em sua área de concessão. O lobby do grupo Light junto ao prefeito Pereira Passos foi decisivo para que o governo federal se tornasse mais rigoroso e exigisse o cumprimento dos compromissos contratuais da SAG.

Em janeiro de 1903, a Inspetoria de Iluminação definiu quais as ruas e praças que iriam compor a primeira zona da cidade a receber iluminação elétrica. Cabia à SAG construir canalizações e uma usina geradora de energia. Em julho do mesmo ano, a companhia apresentou os projetos solicitados, porém o governo adiou indefinidamente sua aprovação.O lobby exercido pela Light nos bastidores dos poderes municipal e federal dificultava as condições de operação da companhia rival. Paralelamente às manobras políticas, o grupo canadense foi adquirindo o controle acionário da empresa belga, e em 1907, 90% das ações da SAG pertenciam à Light, que passava a controlar o fornecimento de energia elétrica para iluminação da cidade do Rio de Janeiro.

Politicamente hábeis, os empresários da Light mantinham laços com a imprensa e relações estreitas com as elites cariocas. A empresa chegou a contribuir com recursos em negociações de compra e venda de jornais, como foi o caso da aquisição do O Jornal por Assis Chateubriand, que era advogado da Light e um dos seus mais ferrenhos defensores.